(...)

"Mas eu não quero ir ter com os loucos", observou Alice.
"Não tens alternativa". Retorquiu o Gato.
"Nós aqui somos todos loucos. Eu sou louco, tu és louca".
"Como é que sabes que eu sou louca?" perguntou Alice.
"Deves ser", disse o Gato, "ou não terias vindo até aqui".

20090901

"Parou de Chover..."

Um pequeno conto que acabei recentemente, já se encontrava esquecido/parado desde o ano passado... Aqui fica para quem tiver paciência para o ler no monitor do pc.

(clicar na capa para abrir...)

4 comentários:

Victor disse...

Olá Lviz.

Finalmente li o teu conto na noite passada (em papel, gentilmente oferecido por ti).

Deixei as várias folhas na secretária durante vários meses, à espera daquele "bichinho voraz" que me rói quando tenho o desejo de ler... e aconteceu a noite passada! Não quis apressar a leitura nem força-la, porque creio que não seria o mesmo, e de certo que os sentimentos seriam outros.

Li em 30 minutos o que deve ter demorado semanas a elaborar - um conto. Saboreei cada palavra, descortinei os vários sentidos ilustrados e até repeti várias partes. Não por ser uma leitura dificil, que não é, mas para imaginar novamente o cenário que de um modo artistico, qual pintor, ilustraste com pomposos adjectivos e deliciosas metáforas - uma sedutura negritude.

A história tem um ritmo muito bom, e as leitura flui porque fui apanhado pela trama e pelo mistério, que de um modo hábil aguçaram a minha curiosidade. E penso que são estes alguns aspectos que definem um bom escritor - se uma história funciona e prende o leitor, então significa que o escritor é hábil na sua empresa; isto independentemente da história. Por exemplo, tenho lido livros que me fazem torcer o nariz de um modo céptico, como se não acreditasse que fosse um bom livro. Mas após ter dado início à leitura, rápidamente sou engolido pela história engenhosamente criada. Foi o caso com dois livros: "Dead Until Dark", da Charlaine Harris - história moderna de vampiros e afins mas que contém um sentido de humor muito interessante; fui céptico com ele porque sou fã da Anne Rice (dá para perceber, assim, o nariz torcido). O outro é um que estou a terminar: "Daughter of the Blood", da Anne Bishop; genialmente bem escrito para o género (não é vampiros), e com uma trama e história muito interessante (recomendo - tem edição portuguesa pela Saída de Emergência).

Foi isto que aconteceu com o teu conto, porque conseguiste um movimento fluído, sem te dispersares muito, e deixaste que o leitor fosse "adivinhando", por assim dizer, a história.

Tenho algumas perguntas, e espero que não prejudique a vontade de ler dos possíveis leitores:
- Existe alguma relação e simbolismo no nome "Domingos" e o facto de haverem sete capítulos?

- O esquecimento é uma chave para o sentido da história: não sei se viste uma entrevista no programa "Bairro Alto" ao poeta Joan Marguerite, o qual afirma, e concordo, que o esquecimento é uma benção porque seria imensamente doloroso viver constantemente com a dor e o sentimento de falta, e também sempre o mesmo amor; concordas, portanto, com esta perspectiva do esquecimento, tendo em conta que o personagem não tem memórias do passado e que por isso não sente a dor da ausência de quem amou com a vida?

Para terminar, deixo aqui o meu contentamento pelo prazer que foi ler o teu conto. Houve uma passagem que gostei (e gostaria que tivesses explorado ainda mais o pânico): a parte quando o personagem se apercebe da sua realidade e começa a bater com toda aforça nas tábuas do caixão. Fez-me lembrar uma passagem num dos livros das Crónicas do Vampiro, da Anne Rice - quando o Lestat (terá sido este ou o Armand? - já li há muito esses livros, mas estou a reuni-los na minha pequena biblioteca para rele-los) é fechado dentro de uma parede com tijolos - a descrição dessa passagem é brilhante, com ilustrações do ritmo da respiração, desde o cálculo mental da distância entre o próprio corpo e a parede para tentar evitar o pânico, até à sensação do tempo a passar que está em concordância com o ténue fio que liga a calma e o pânico.

Muito obrigado pela delicosa leitura, e que bons frutos teve em mim.

Abraço,
Victor Hugo

Lviz disse...

Olá Victor!

Antes de mais obrigado pelo feedback. É sempre bom ouvir uma crítica, seja ela boa ou má, desde que com consistência a justificação, que é algo que está sempre presente nas tuas.

Respondendo as tuas perguntas…
O coveiro não era para ter nome, tal como de resto nenhuma personagem na história tem, mas depois lembrei-me d'um senhor: o coveiro da minha terra... DOMINGOS! E pensei: "porque não?" e assim ficou :P
É curioso, terem ficado 7 capítulos tendo em conta a simbologia desse numero... não foi propositado... (também no nome do coveiro ficou o n.º "7", domingo, o 7º dia, o de descanso, sendo o descanso do coveiro interrompido por a rapariga...) não sei, existem realmente muitos pormenores que coloquei propositadamente... mas há muitas coisas que foram mero acaso...
O esquecimento, já esse desempenha o papel que falas, o de palavra-chave. (sim, vi o programa, infelizmente não desde o inicio...) e é como dizes... a "benção" do homem é não se lembrar e consequentemente não sofrer com o seu passado, apesar de possuir um sentimento de culpa por isso mesmo...
Quanto a parte do caixão... não desenvolvi porque, sendo sincero, já estava farto desta historia e queria muito acaba-la rápido já que tinha outros textos/poesias que andava a escrever também :P mas quem sabe ainda faça o que disseste acima...
Outro pormenor era o de que o primeiro capítulo era um texto já “acabado”. Já o tinha feito uns meses antes e por ser tão vago acabou por ficar de lado. Mais tarde, ao relê-lo achei que poderia torna-lo em algo mais, e assim fiz. Ficou como introdução para este conto :)
Fico contente por teres gostado e pelas tuas palavras… de momento não tenho feito muita coisa, mas lá escrevo algo de vez em quando…

Até uma próxima,
Abraço,

Lviz

ana disse...

possível é que me esteja apaixonar pelas tuas palavras num só dia
possível é que duas almas se encontrem na poesia, facto cubiçado por Florbela Espanca, facto que a "suicidou"
é ainda possível que nunca venha a ler nada teu escrito para mim

À imagem do anjo
( poema que te dedico por demonstrar o medo que tenho da inutilidade destas palavras que te escrevo )

És impossivelmente belo
delicadamente belo
imperturbavelmente belo
esgotantemente belo
repetidamente belo.
És-me o romantismo tardio que tardiamente me romantisa a alma
és-me um todo romântico
que eu amava amar
não fosse essa tua falta de amor por mim
que se enfeita num belo cabelo longo
belos olhos desenhados
belo corpo escrito,
delicadamente belo
imperturbavelmente belo
esgotantemente belo
repetidamente belo
tão inutilmente belo.

e se agora tu me lesses? :)
e se eu agora cantasse à chuva o que sentes pela chuva? e se eu agora chovesse no teu cabelo fino que aparecesse?
e se eu fosse Picasso e sintetizasse o museu do meu sentir, estaria ainda pobre, à espera de ser rica, para te poder albergar em meus braços.
e se eu falasse japonês perfeito, mais razões para te não perder, mais razões para me amares para além do que não vês, este corpo esculpido pelo moleiro de cristal.
e se eu preferisse sangrar a seiva verdadeira deste ser sobre um papel branco descolorado em vez de desfalecer à noite, sonhando ser fonte a teu lado?...

sayonara

Passarinho disse...

Agradeço teres-me mostrado este teu cantinho, dando-me a oportunidade de ler o que escreves.
A propósito deste conto, percebe-se claramente quem foram os modelos para as tuas personagens, o que torna a história mais tua e dá-te margem para te concentrares na acção, uma vez que já conheces as personagens.
O conto lê-se de um trago. Gosto da atmosfera sombria, dos cenários, do tema. Contudo, tenho pena que os capítulos não sejam um pouco maiores. Tenho pena que não descrevas mais o sentimento e dor dela, que acaba de perder a pessoa que ama. No geral, o texto parece-me um prospecto para algo mais, ou talvez seja esse o meu desejo.
No geral, um belo conceito, mas com espaço para melhorar.
E se me permites, e já que gosto de escrutinar o que leio, zela por não usar tantos advérbios de modo, e há uma ou outra gralha gramatical, que apesar de tudo não retiram beleza ao texto.