(...)

"Mas eu não quero ir ter com os loucos", observou Alice.
"Não tens alternativa". Retorquiu o Gato.
"Nós aqui somos todos loucos. Eu sou louco, tu és louca".
"Como é que sabes que eu sou louca?" perguntou Alice.
"Deves ser", disse o Gato, "ou não terias vindo até aqui".
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20100204

recordação

(Deixo mais um dos primeiros textos que escrevi. Este encontrei-o nas costas d'um enunciado de exame do 1º ano da faculdade... Não é que o tivesse achado particularmente bom ou diferente, partilho-o apenas porque lhe achei piada...)
A lua há muito que me desapareceu. E a cálida Noite, inconsciente acolhedora dos nossos passados cheios d’um sorriso apenas sussurrado, findou. Deu lugar á cruel veracidade do Dia, cegante d’uma luz grosseira, nauseabunda. Desconfortável. Cheio de perniciosos espectros que deambulam em pares, num pomposo sem-sentido aparente. (Odeio-os.) Caminham com sorrisos vazios cravados na face… (Invejo-os!) A alegria deles trespassa-me, qual seta enferrujada e embebida em veneno de ratos, as costelas quebradas e cruas de frio. No meio dessa algazarra fomentada pela excitação animal, agarrei a tal reminiscência com as duas mãos incomodamente cerradas, níveas de tamanha força. De seguida, encostei-a aos lábios secos e fendidos pelo prazer distante, e tomando-lhe o amargo paladar aquela última vez, arranquei-lhe a cor á dentada, lenta e violentamente, assassinando-lhe cada átomo de vida, roubando-lhe cada prótese adoentada, pétala a pétala e...

(…)
Quando voltei a mim, reparei que tinha tido o cuidado de não engolir nenhum pedaço… não fosse por lá vomita-lo em seguida.

20090901

"Parou de Chover..."

Um pequeno conto que acabei recentemente, já se encontrava esquecido/parado desde o ano passado... Aqui fica para quem tiver paciência para o ler no monitor do pc.

(clicar na capa para abrir...)

20090125

Cumplicidade

(este é um texto já bem antigo, inicialmente feito para ser um conto...decidi posta-lo, apesar 
de inacabado, pois já não terá seguimento devido ao facto de deixar de ter significado/sentido)


Eram cúmplices. Aquele segredo que os unia interiormente, transformava qualquer profano ambiente que rodeasse a sua proximidade etérea, numa espécie de dimensão paralela secreta, um local sagrado de culto à beleza, à paixão, ao quente encarniçamento dos corpos, à entrega mútua. Só a eles pertencia, autonomamente de quem os cercasse ou do que estivesse a acontecer. O contacto físico não era de todo fundamental. A ligação era maioritariamente psicológica, realizava-se através do mais subtil dos olhares, da mais inocente expressão ou do mais elementar pensamento… a transcendência do espírito de um e de outro fluía livremente entre as duas carapaças que outrora albergavam apenas a essência de cada um. Eram um só espírito…a mais longínqua das distâncias não separava as suas mentes interligadas nem os seus apressados corações, pois eles batiam em uníssono, qual pauta de orquestra clássica guiada pelo mesmo maestro inequivocável, comandando magistralmente os ritmos e os sons que se elevavam e contagiavam de êxtase o ambiente envolvente.

Mas tal como criaturas insatisfeitas, a distância física tornava-se impossível de suportar. Protegidos pela calma escuridão da noite e pelo conforto de um lar (que não lhes pertencia nem nunca iria) tocaram-se pela primeira vez. Arrepios corriam de um corpo para o outro. A paixão com que um simples beijo era trocado era quase violenta. Desejo. O deslizar das suas mãos pela pele um do outro despoletava doces calafrios que se tornavam promessas eternas. Paixão, amor…sexo. Desenfreada repetição.

A entrega era agora completa.
Completa de desejo e corrupção. Aquela que fora uma imaculada e idílica paixão estava agora tingida pelo pecado que advinha do toque. Já não mais seria senão uma pálida imagem turvada como um magnífico quadro desbotado pelo desgaste que o tempo não perdoa.
O que outrora fora um local de culto sagrado etéreo era agora um amontoado de ruínas profanadas pelo contacto. Nunca mais seria igual. O que de mais puro outrora houvera tinha sido estrangulado pela intensidade do desejo físico. Aquela paixão imaculada estava agora coberta por uma máscara, que, sendo impossível de tirar, provocava uma lenta degeneração no rosto, em tempos belo, coberto por ela, tal como uma doença que devora a vitalidade do seu infeliz portador… E quando a doença finalmente se esvanecesse, nunca nada mais seria o mesmo…
(...)
"Como é horrivelmente hedionda essa doença chamada memória…" - pensou.

20080627

Frio

Frio.
Assim é esse teu impetuoso coração.
Egocêntrico narcisismo teu que quimericamente me hipnotiza, me transmite esse falso calor fulgoroso de que na verdade és destituída. Atroz Fevereiro imerso de crueldade, fazes-me crer sem necessidade de ver e sentir sem precisar tocar...condenaste-me a alma a uma eternidade atroz e pavorosa quando olhaste dentro de meu peito esburacado...curaste-me as feridas para que aquela que me farias fosse mais verdadeira... impregnas-te a minha incontrolável imaginação com uma inconsolável (até mesmo para mim) e bela utopia. Mas as utopias há muito que findaram... e nem mesmo tu, ó formosa estátua de deusa grega, conseguirás que estas mãos trémulas segurem esse bem que não é meu.

Teimas caprichosamente em caminhar a meu lado numa estrada que só a mim tem visto passar, que só a mim pertence. Teimas... mesmo sabendo que irás ser parada...impedida de continuar, por tua única vontade. Agora que me afasto...que quase já não te consigo observar, impedido pela sensata distância que tu própria impuseste, ainda sentes o mesmo? Ainda possuis essa maldita vontade de profanar os meus pensamentos? Ó esquecimento misericordioso que o tempo tarda em trazer...

Anseio novamente pela solidão, pois já não sei lidar com pessoas, esses desprezíveis seres, ignóbeis e imundos que riem e mentem indiscriminadamente. A essas odeio-as. E a todas a outras também, até mesmo as que sofrem e choram. Faz-me saudades os momentos íntimos em que ainda me deslumbravas... em que descobria arroxeadas flores-de-lotús dentro da tua verdejante imensidão, que tão lenta e docemente me dominava, quais suaves asas de um anjo. Fantástico desejo ilusório. E quão vã é a forma como a mim te diriges.

Cruel é o teu abandono e desleal a tua presença.
És cisne e carcereiro, orquídea e cipestre... és carta de amor e sentença de morte.
Promessa eterna de uma fugaz névoa matinal, ilusória.

(Não deixando de o fazer) Não mais te quero sentir.

Decepção

Através de um involuntário desejo que me assentiu a minha profana consciência, coloquei uma amarga e desconsolada máscara naquela que era a mais angelical das faces...Não que a agora magoada expressão com que me fita através de delicadas gotas translúcidas que caem indiscriminadamente choradas pelas inalcançáveis nuvens negras, perplexas neste cenário melancolicamente cinzento, incite qualquer tipo de deleite à minha extasiada alma. Porém, tal como o impetuoso prazer de uma inocente criança desinquieta ao inexplicavelmente ser impelida a quebrar um harmonioso jarro de flores da sua progenitora, (ainda que saiba que é desacertado) assim é o prazer de que usufruo-o actualmente ao ter certeza que o desapontamento que lhe causei foi verdadeiramente genuíno. Não é decerto um sentimento, esse o da desilusão, que posturas mascaradas e amarelas de falsidade e logro possam delicadamente ocultar, como a noite sombria faz em prol do ladrão. Oh! Como a sua demonstração desse vil e mesquinho sentimento é docemente encaminhada até ao palato do meu coração! E quão grande é o meu deslumbramento!

Sórdidos são os teus intentos…
Eram…!

Ir-te-ei oferecer tantas decepções carmim quanto me forem toleradas. Ir-te-ei impregnar tamanha porção delas até a morte por desgosto se apoderar da tua reles alma desprovida de justiça. A justiça é cega e tu julgas somente com esses olhos que quimericamente me fitam, hipnotizam e entorpecem…

Sigo-te…quero-te…não…recupero a minha ténue força…

Eis o meu admirável espelho do egoísmo.

Agora que o viro para ti, que te obrigo a olhares fundo no teu gélido coração, julga, avalia e crê no que observas assombrada.

Não mais hipnotizarás.

Chora.

Vermelho-Sujo

Penso que o pecado consumado da inveja, muito meu para com escritores, poetas e afins, foi a única razão que me impeliu a tomar-lhes este rumo, que me é desconhecido (ou pelo menos não tão familiar). Letras. Palavras. Frases. Quero com elas expulsar do meu interior pútrido, confusos sentimentos repetitivos como este maldito tic-tac de um enorme relógio de cuco numa fria sala obscura e solitária de cor vermelho-sujo…Não! Exijo que elas exorcizem todo o mal/bem que possuo dentro do meu peito para que depois, finalmente desprovido de sentimentos, me torne um ser sem sensibilidade de espírito. Poderei até, mais tarde, permitir-me observar parte daquilo que outrora pensei me fazer sentir vivo, (como agora penso que faz?) no entanto, sem remorsos ou estúpidos sentimentos de culpa. (oh doce engano venenoso que me adoças os lábios e aqueces o coração). Ou então, que ao reler-me nesse (espero) distante momento, não me fizesse sentir tão cadavericamente esvaziado como nos demais anos que o tempo não tem vindo a perdoar ao meu desgastado-pelo-uso motor vermelho.

Assemelha-se-lhe o tempo, caprichoso.

A sua presença, ora radiante ora implacável, todavia omnipresente, exerce sobre mim uma espécie de aperto invisível, que actua como um poderosíssimo torniquete metálico ou mesmo talvez como a pressão que se encontra no fundo dos oceanos inabitavelmente gelados. Invade-me o peito em repentinos movimentos repetidos (como o ponteiro dos segundos naquele velho relógio) até que finalmente convergir na mais pavorosa estagnação.

Sim…é, tal como o inevitável fluir do sempre fugaz tempo, implacável. Ainda assim, até o tempo com o seu imparável avanço possui momentos mortos.

Afastou-se finalmente.

Mata-me! Rápido! (Não. Lentamente, por favor…)

Degrada-me ainda mais um pouco a cada avanço (agora mais vagaroso) do ponteiro dos minutos desse antiquado relógio de cuco. Mas sempre que se aproxima a (nossa) hora marcada, quando o culminar do esforço sentimental desse ponteiro para se encontrar com a sua amante na casa das 12 atinge o seu expoente máximo, quando esse mesmo fabuloso momento chega, o cuco não canta. A portada da sua moradia abre-se… porém, já ninguém habita a escura e húmida abertura no topo do velho relógio de mogno. E o pesaroso silêncio instala-se por todo o espaço vazio da sala vermelho-sujo. A mesa já não tem tampo e as cadeiras já não têm encosto. As outrora belas orquídeas prostradas num vaso requintado no peitoril da única janela da sala apresentam um aspecto quase miserável. Já não é confortável.

Mas ele continua lá. Avança soluçante…faltam-lhe as forças. Apodera-se dele um sufocante cansaço. A sua passagem pela casa das 12, algo que já se lhe tornara familiar, avizinha-se agora como uma tarefa praticamente impossível de se repetir…e quantas foram essas pecaminosas repetições! Ainda que sempre breves, nunca deixaram de ser imbuídas num deleite tal que o desejo do regresso ás 12 tornara-se quase uma obsessão. Mas o velho relógio de mogno era de corda…e quem iria entrar naquela sala fria e de texturas vermelho-sujo para lhe dar o último laivo de força que ele precisava?

Parou enfim…

O canto do cuco nunca mais será entoado. O maldito tic-tac suave dos ponteiros não mais se irá ouvir.

Ficou agora vazia, a sala vermelho-sujo… verdadeira e inevitavelmente vazia…