(...)

"Mas eu não quero ir ter com os loucos", observou Alice.
"Não tens alternativa". Retorquiu o Gato.
"Nós aqui somos todos loucos. Eu sou louco, tu és louca".
"Como é que sabes que eu sou louca?" perguntou Alice.
"Deves ser", disse o Gato, "ou não terias vindo até aqui".
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20110207

sem-titulo13 (φάντασμα)

Brinca distante
Menina pequena,
Teu sorriso fascinante
Já a ninguém lembra.

Vai, pequena,  cheia d’encanto
E corre ténue, brinca e canta
Um inocente e floreio canto
Sem qu’um som saia da tua  garganta.

Brada em vão menina absorta,
Porqu’é que ninguém te vê?
Bate em vão, porta-a-porta
Nenhuma abre e tu não sabes porque…

Não se apercebeu que s’alterou
Que já não é a mesma…
Todos são estranhos, tudo mudou
E tudo lhe parece fantasma…

Ineficazes “olás” a petiz proclama
Mas ninguém a vê ou acena,
Ela educada não reclama
E segue só, até á próxima viela.

Chama em vão menina absorta,
Porque mais ninguém te vê…
Bate em vão, porta-a-porta
Nenhuma abre e tu não sabes porque…

De paz sereno e cinzento
Jaz (há muito) no seu leito final,
Tão apodrecido quanto quieto,
Seu outrora delicado corpo jovial.

Perambula translúcida
Perant’esta multidão,
Não mais é vivida
Em nenhum coração.

Clama em vão menina morta,
Já mais ninguém te vê.
Bate em vão, porta-a-porta
Nenhuma abre e tu não sabes porque…

20110201

sem-título11

Consciente da minha tolerância,
Abandonei-a naquela esquina.
Não a quero, está gasta,
Pode ficar para aquela menina...
Que lhe faça bom proveito,
É para mim, menos um fardo no peito.

20110131

14 de Fevereiro

Tudo em ti é profano
Ainda que gente o desminta,
Aquilo qu’eu vejo de divino
É tudo o que teu coração não sinta.

Teus gestos de falsa paixão
Provocam somente oceanos de dor
E teu olhar, d’um maléfico fulgor
Faz sangrar sem compaixão!

Não importando os sonhos que destróis,
Labaredas soltam-se de tua língua calculista,
Fazes com que nenhuma Casa resista
A essa tua fúria de mil sois.

Cheiroso afecto da tua pele transparece,
Encantador, belo e enganador,
Ao teu Sangue perpetuamente negado
Só ao alheio oferecido em esplendor.

Descosidos sorrisos de perigos irreais
E coração há muito sem cor
Repleto de sentimentos bestiais.

20100805

Chimäera (parte1)

E agora;
Agora arrasto este Sol em miniatura
Puxando-o pelos cabelos frágeis.
Tem as velhas unhas cravadas na alvura
Das paredes deste meu sonho passado
De madeira bolorenta e capricho húmido.
Farto-me rápido e num gesto abrupto
Guardo-o no bolso, solene,
Junto da translúcida memória arruinada
E do som soturno daquela sirene
Que nesta contínua carícia alienada,
Desfeita em pontiagudos cacos,
Me fere o Sonho lentamente,
Tão arrebatadamente…

Agora…
Falho ao tentar colar agora,
Esses tantos pedaços
Com usadas tiras de fita-cola,
Que não se conjugam mais. Entre os destroços
Desta caravela que não mais irá voar
Fica a hereditariedade dos espinhos forçados,
Vincados nas rugas do tempo velho, já sem placas ou sinais.
E eu que quis parar e não pude? Impediu-me a pouca
Luz, o gorgulho coagulado na urna da minha boca
E os sôfregos monstros da minha clausura; todos eles rivais.

20100727

sem-título8




















Palavras fracas e reles
Porque não m'ajudais em nada?
Sois como flácidas e ocas peles
Nada dizeis, mas marcais qual chaga,
Cavais fundo minh’alma
Qual penosa e ferrugenta enxada:

“Mortiço prazer, refúgio putrefacto
RevestidoDePoeiraCoaguladaP'laAmargaProvação
Deste Arauto do Apocalipse; que de resto
Goteja sôfrego num delírio de atracção
Pela púbis divina,
Imersa em urina,
Ganidos e uma re-cor-da-ção.”

Rasgai-vos agora de minha cabeça cheia
Para que vos expulse minha vil língua insana.

20100323

sem-título7



De mansinho,
Rosno imoderado para dentro do teu ser
E ranjo as mandíbulas pausadamente
Enquanto cerro os punhos de prazer.
Escuto o teu bater em que se sente
O meu eu dentro das tuas vísceras
Retraídas num espasmo dilatado,
Inconsequente das próximas pancadas
Consumidas num acto adocicado.
Rasga-me a pele:
“Mais, raios! Mais!”
Para em seguida inalarmos o fel
Segregado por poros em triunfais
Corpos colados.
Cobiçados, estrangulados.
Amadas pupilas incandescentes.
A dor não é nunca sentida,
Mas sim nos olhares urgentes:
Em verdade Cantada!

20100211

Estagnação do Ser Superior Plural


Entre mijo carmim e semblantes antropomórficos
E o apenas vosso nojento odor, oh deformados!,
Afugentais destas ruas os conscienciosos,
Pois as suas feridas não acastanharam
E o pus que lhes entupia os vasos sanguíneos
Já não corre mais, nesse comum coração.

As chuvas aladas que caíram tardias,
Encontram-se agora comodamente sentadas.
Já não lavam ou limpam luzidias,
Os dejectos humanos e suas auto-aclamadas
Civilizadas porcarias.

20090519

Antes d'VIIIXV

Para L.


Antes d’Outono passado,
A todos indiferente,
Fui perfeito inacabado,
Malfadada e porca gente...

---
[ Desconfiado, tentado,
Aproximei-me contemplando
Aquela pequena fresta de luz
Que através do vidro rachado,
Queimou na minha pele, a forma d’uma cruz.
Deliciado com aquela dor desconhecida
Quedo, absorto fiquei. “Oh marca imaculada!”
“Ficarás para sempre” – falei.
("Morte a minha repleta de vida,
Foi a ela que antes desejei.
Mas já não quero essa divida
Pois já tenho o que sempre esperei.")
Libertei minha alma enfeitada
Da opulência e falsa riqueza
E entreguei-me à futura recordação,
Ciente do medo, da incerteza
Desta, agora minha, conjunta peregrinação,
A qual, pouco a pouco,
Me devolve a memória que julgava
Apagada, com o toque do osculo,
D’uns lábios feitos de luz alva. ]
---
...entre as incertas folhas
Que lentas caíam vermelhas,
Trouxeste-me, Zéfiro alado,
O que à muito era aguardado.

20090512

Àquele gato perto da estrada, déspota sofredor da inconsciência



(Tudo foi fastidiosamente igual,
Sentido através de teu coração de cal…)
Os tectos que vejo antes e durante
À consciência frontal desta ferida,
Foram enfadonhos e idênticos. Estanque
Fiquei perante a minha inércia concedida
Ao ar que respiro absorto.
…faz apenas com que sinta recusa.
Olho estático ao redor desse aborto,
Porque não sei se é difusa
A existência
Ou se será apenas confusa.
Absurdamente escolhida.
Quente e doce. Gemida.
E finalmente, tolhida.
Já nem ver a tua morte me dá “tusa”.
É igual. Vezes sem conta.
Tão igual, repetitiva e tonta.
Sem sentido aparente, destinada
Apenas a repetir-se
Mostrando-se apenas calçada repisada.
Sangue. Pisoteado, calcado e recalcado.
…esquecido.
Encostado a uma suja valeta imunda,
Ficarás, a partir de agora, descansado
Sem nunca saberes quão majestosamente profunda
Foi a tua ferida.

20090511

Dogma Humanitário



Avassalador desconhecimento
Causador de profunda agonia,
Para quê as memorias e o sentimento
Se tudo acabará um dia?

Porque vos guardo ó fotografias,
(por entre deuses ou lógicas)
Nas minhas estantes empoeiradas
Se quando cessar, não mais serão por mim lembradas?

Para quê o amor ou o ódio,
(oh! quão nada que somos),
Para quê o lembrar e o pódio
Se do sentido jamais seremos donos?

Porque o beijas tu, ó menina?
Pois não sabes a tua sina?
É a morte e o esquecimento
Prenda atroz, da volúpia do tempo…

Porque dizes ama-lo loucamente?
E porque te diz ele qu’o mesmo sente?
Não sabeis estar indeclinávelmente fadados,
Ao negro fado, de serem um p'lo outro deslembrados?

Para quê (raios!) o conflito e a vitória
(Iludidas mentes p’lo universo inexistente…)
Para quê os derrotados e a escória
Têm tanto não tendo nada, como toda a errante gente.

(Vãs liberdades totalitárias,
Vagas ditaduras democráticas,
Paradoxos dogmas da crença vulgar…
Sim! E outras belezas d’encantar!
Bons deuses malfeitores,
Malvadas divindades libertadoras…
Atentai nas palavras minhas, ó doutores:
Nem vós durareis, face ás apressadas horas…)

Tão avassalador desconhecimento
Causador de minhas profundas agonias,
Não sou carne nem sou vento…
Somos senão cheiro de defecadas teorias,
Cagadas por mentes aborrecidas…

20090505

Auto-Retrato a uma Cabeça Decepada, em 5 Partes Fugazes


(Feito a partir d'uma ideia algo apodrecida na minha cabeça e o impulso causado pelo sublime ambiente músical de Löbo - http://www.myspace.com/lobodoom )


(i.)
Misantrópico paradoxo
Ou uma amalgama humana,
Inexistêncialismo contraditório
Dotado de consciência…
Sou(?) no meio de tantos,
O que tantos foram no meu meio…
Reneguei ideais e “ismos” e santos,
Porém, guardei-os no meu seio…


(ii.)
Uno, desfaço-me em coisa alguma:
Sou ecos fragmentados,
Fornicados p’lo dogma…
Sou átomos desarticulados…
Algo crente na descrença
Que crio qual doença,
Matei os meus “eus”
Criando um outro falso deus,
E para (talvez) me libertar…
Acorrentei-me ao meu gritar:

( “Sou-o, revolução decibel e agressivo!”
Disse-o urrando e a berrar,
“Fui-o…” – fatigado e aborrecido,
“Estou prestes a cessar…” )


(iii.)
Durmo sabendo-me acordado,
Movo-me sem saber se fui sonhado,
Inventei seres, certezas e alegorias
Pois perdi a lembrança dessas memórias…
Que por medroso ser criei…
Pior! Pois absurdo acreditei
Não conseguir ânimo para dizer
À criança dentro de mim (que cessou de engrandecer),
Que tinha de morrer, enfim…
Criança ela, que nunca cuidou ser morta por mim…

Presumível feto, definhou (sem) o Ser no ventre oco...
Aborto imaginário tornado realidade d’um louco.


(iv.)
…iremos todos amanhã perceber.
Amanhã, quando me esquecer de ser.
Quando a carcaça abandonar o ser incolor
E o pensar for apenas mais um fétido odor…
Mas por agora, Inexistêncializo-me aqui em baixo.
Vou-me esconder debaixo do meu seixo,
Morno desconsolo e aconchegante,
Porque só ele sabe acalmar este desconforto lancinante.


(v.)
Insânia paranóia
Vago descontrolo
Insónia ilusória…
Ilusório é o controlo.
Pois não foi nunca meu cadáver
Que a gravidade tem puchado…
Mas sim o cheiro de minh’alma,
Presa, neste feio lugar descuidado.

20090430

Necessidade (>_<)

("Homenagem ao Acto de que Ninguém pode Prescindir" ou "Uma Merda de Poema")


Um vasto vazio preenche agora
Meu ser povoado de branco,
As horas passam sem demora
Pregando-me a este gasto e sujo banco.

Tripas revoltam-se ferozmente
Emitindo timbres agonizantes…
Do outro lado oiço: “Urgente!”,
Entre ligeiros gemidos, impacientes.

Tento erguer-me deste sentir,
Mal-estar distintamente causado
Por manchas de negro reluzir,
Expelidas, de meu rabo sentado...

“Já saio.”

20090422

sem-título4 (kami-sama?)

Nada fazendo para ser acreditado,
Sê-lo-ás sem que o queiras,
Temores provocam o rugido bradado
Por ninguém ouvido…
Por todos escutado.

Sem ti estarão perdidos,
Na incerteza da luz fugidia,
Os que pelo vale escuro caminham.
Aguardam surdos os ouvidos
Pela língua que mudo falas,
Procuram os olhos vagos, pelos
Gestos invisíveis qu'articulas.

Estarás na causa indistinta
Da tua própria dúvida,
Hoje na incerteza prospéras,
Amanhã esquecidas alegres certezas
Serão mal ditas por terras
Que outrora foram tuas.

Mas antes qu'a noite desvaneça,
Aquilo de que te apoderaste injusto
Será tolhido pela névoa espessa
Pois fui eu quem te criou, insensato
D’aquilo que a tua figura roubaria...
O manto negro aproxima-se-te
E tal como estas palavras
A memória tua será esquecida
Pela mágoa de horas futuras.

20090331

sem-titulo3 (falência)



Oblíquo perscrutei errante
O conhecimento e o escrúpulo,
Fiz figas nulo, descrente
Perante meu gasto defeito.

Avancei 100 prosseguimento,
Sem bafo nem vista,
Pisei-me excremento,
Saboreei nenhuma conquista.

Em tentativa última de alcançar…
Fui vago e algo pálido,
E carecendo de ti para voar
Tornei-me sublime asco degenerado.

20090329

Ou



Cruas e ignoradas vísceras
Que m’as rasgues Esperançosamente
E as possas submergir, delícias
Em pavor e aguardente,
Desse pus Imaculadas
E bênções de olhar regente,
O que não compreendi
Entrego-te inócuo e sem defeito
Pois não sei se as senti,
Em luz alguma crente,
Fui oco, de tão perfeito.

---

Má focagem no horizonte,
Só de-mente ingénuo
Tamanha meninice indecente

Sou pequeno…
Tão pequeno.

20090127

Palavra

“Expele-me!” Ordena autoritária.
A dissimulada…a maldita!
Arranhando-me a garganta
Com magnificas roupas doiradas
Que lhe escondem a feição horrífica...
Dançando com o silêncio,
Cai, lágrima seca em minha cara.
“Aquietarás a minha dor?” pergunto,
E de sentidos erectos,
Caio inerte. Mudo...
Quero fornicar-te mas faltam-me as forças;
E como se d’uma reles puta se tratasse
Deixar-te usada sem dignidade.
“Sussurra-me!” disse baixinho.
“Sem pudor ou por piedade,
Pois, que voz seguirás se o vácuo do silêncio
Roubar de teus ouvidos essa gasta verdade?”

20090121

Torpor


Mergulhado num maciço nevoeiro
De mais um eco de minha memoria faminta,
Demoro, atordoado e sem choro.
Rodeado pelo meu próprio requintado bafo poluído,
Deixo escorrer timido para o chão imundo
O vinho de mais uma taça imoralmente servida
Sob esse amargo olhar de mágoa desdita…
 
(…fumo?)
 
Olho o ingénuo com pernas deformadas que se me aproxima,
Vulto d’um agonizante sorriso sofrido,
Esbatido numa expressão de porcelana rosada.
Sussurra murmúrios que fogem ao ouvido
Empoeirado, ignoro satisfeito
Deixando-me envolver pelo cheiro a queimado.
“Vem das tuas asas” diz ele, agora em tom claro…
Acena-me um leve gesto incerto, magoado.
Deixo-me entorpecer pelo odor carbonizado
E ignoro a dor sentida
Dentro desta carcaça com vida,
Comodamente enfraquecida.

20081208

(desabafo à inspiraçao)


Esmoreço.

Esmoreço ao tentar-te.
Esmoreço caído num chão frio de raiva outrora carrasca.
Esmoreço retraindo todo o proveito que não mais há em mim.
E quando penso sentir-te na frágil luz que terrificamente me cega,
Desapareço…

Pela raiva frio, declinado neste chão rumino
Aquel’outro proveito meu, porque Não te pertenço.
Esmoreço. Enfraqueço…Penso ver-te e…
Esqueço.

Ondulado sob o meu molde vomito-te
Forma vã e indiscreta, não mais é minha nem pretensa.
Tormenta desencarecida d’um som repetitivo.
Desencantadamente vazio,
Desafortunadamente pretendido…
Esmorecido.

20081023

sem-titulo2 (Lâminas)

 
Quase senti a sua pulsação,
Quase saboreei a sua falsa inocência...
Sim... Quase... Porém,
A lâmina que segurei não mostrou perdão!
Não o mereceu sua débil consciência...

...

Ela em meus braços...A lâmina em seu peito...
Ocupa agora tudo seu justo lugar.
Triste é seus olhos não mais contemplarem,
Pois pena será, não puder ver quão perfeito
Está hoje o cativo luar...

20080905

Nunca



Quando morrer
 
Deambularei num sonho acordado,
Alimentando-me de teu fugaz sorrir.
Esperarei não mais despertar
Ainda que adormecer seja tormento,
Ainda que simulado seja o sentir.
 
Quando morrer
Morri dentro de ti.
 
Morri nas desculpas aborrecidas,
E nas noites de aproximações desaparecidas,
Impregnei de negras culpas,
Este ar que não mais respiras.
O que foste, o que és?
Da minha vez que nunca acudiu
Uma promessa quebrada,
De um doce apelo temperada,
Despojaste de sentido aquela utópica realidade.
 
Quando morrer
Morrerei dentro de ti.
 
Desilude-me a cor dos olhos, peço-te
Uma vez mais...
Adormece-me…
Permite-me divagar naqueles desbotados lençóis
Que tingiste com esse aroma sem cheiro
E abandona-me uma vez mais...
E mais...
E mais...
e...
 
Não morri...
 
Nunca dentro de ti...