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20090901
Conto "Parou de Chover..."
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20090610
mil
Não vou estar a pôr nada novo por enquanto, pois encontro-me a escrever dois contos... já tinha saudades da prosa :P
Espero puder dar noticias em breve.
Obrigado mais uma vez
Luiz
20090519
Antes d'VIIIXV

Antes d’Outono passado,
A todos indiferente,
Fui perfeito inacabado,
Malfadada e porca gente...
---
[ Desconfiado, tentado,
Aproximei-me contemplando
Aquela pequena fresta de luz
Que através do vidro rachado,
Queimou na minha pele, a forma d’uma cruz.
Deliciado com aquela dor desconhecida
Quedo, absorto fiquei. “Oh marca imaculada!”
“Ficarás para sempre” – falei.
("Morte a minha repleta de vida,
Foi a ela que antes desejei.
Mas já não quero essa divida
Porque já tenho aquilo por que esperei.")
Libertei minha alma enfeitada
Da opulência e falsa riqueza
E entreguei-me à futura recordação,
Ciente do medo, da incerteza
Desta, agora minha, conjunta peregrinação,
A qual, pouco a pouco,
Me devolve a memória que julgava
Apagada, com o toque do osculo,
D’uns lábios feitos de luz alva. ]
---
...entre as incertas folhas
Que lentas caíam vermelhas,
Trouxeste-me, Zéfiro alado,
O que à muito era aguardado.
20090512
Àquele gato perto da estrada, déspota sofredor da inconsciência

(Tudo foi fastidiosamente igual,
Sentido através de teu coração de cal…)
Os tectos que vejo antes e durante
À consciência frontal desta ferida,
Foram enfadonhos e idênticos. Estanque
Fiquei perante a minha inércia concedida
Ao ar que respiro absorto.
…faz apenas com que sinta recusa.
Olho estático ao redor desse aborto,
Porque não sei se é difusa
A existência
Ou se será apenas confusa.
Absurdamente escolhida.
Quente e doce. Gemida.
E finalmente, tolhida.
Já nem ver a tua morte me dá “tusa”.
É igual. Vezes sem conta.
Tão igual, repetitiva e tonta.
Sem sentido aparente, destinada
Apenas a repetir-se
Mostrando-se apenas calçada repisada.
Sangue. Pisoteado, calcado e recalcado.
…esquecido.
Encostado a uma suja valeta imunda,
Ficarás, a partir de agora, descansado
Sem nunca saberes quão majestosamente profunda
Foi a tua ferida.
20090511
Dogma Humanitário

Avassalador desconhecimento
Causador de profunda agonia,
Para quê as memorias e o sentimento
Se tudo acabará um dia?
Porque vos guardo ó fotografias,
(por entre deuses ou lógicas)
Nas minhas estantes empoeiradas
Se quando cessar, não mais serão por mim lembradas?
Para quê o amor ou o ódio,
(oh! quão nada que somos),
Para quê o lembrar e o pódio
Se do sentido jamais seremos donos?
Porque o beijas tu, ó menina?
Pois não sabes a tua sina?
É a morte e o esquecimento
Prenda atroz, da volúpia do tempo…
Porque dizes ama-lo loucamente?
E porque te diz ele qu’o mesmo sente?
Não sabeis estar indeclinávelmente fadados,
Ao negro fado, de serem deslembrados?
Para quê (raios!) o conflito e a vitória
(Iludidas mentes p’lo universo inexistente…)
Para quê os derrotados e a escória
Têm tanto não tendo nada, como toda a errante gente.
(Vãs liberdades totalitárias,
Vagas ditaduras democráticas,
Paradoxos dogmas da crença vulgar…
Sim! E outras belezas d’encantar!
Bons deuses malfeitores,
Malvadas divindades libertadoras…
Atentai nas palavras minhas, ó doutores:
Nem vós durareis, face ás apressadas horas…)
Tão avassalador desconhecimento
Causador de minhas profundas agonias,
Não sou carne nem sou vento…
Somos senão cheiro de defecadas teorias,
Cagadas por mentes aborrecidas…
20090505
Auto-Retrato a uma Cabeça Decepada, em 5 Partes Fugazes

(Feito a partir d'uma ideia algo apodrecida na minha cabeça e o impulso causado pelo sublime ambiente da música de Löbo - http://www.myspace.com/lobodoom - obrigado pelo "empurrão".)
(i.)
Misantrópico paradoxo
Ou uma amalgama humana,
Inexistêncialismo contraditório
Dotado de consciência…
Sou(?) no meio de tantos,
O que tantos foram no meu meio…
Reneguei ideais e “ismos” e santos,
Porém, guardei-os no meu seio…
(ii.)
Uno, desfaço-me em coisa alguma:
Fornicados p’lo dogma,
Sou ecos fragmentados…
Sou átomos desarticulados…
Algo crente na descrença
Que crio qual doença,
Matei os meus “eus”
Criando um outro falso deus,
E para (talvez) me libertar…
Acorrentei-me ao meu gritar:
( “Sou-o, revolução decibel e agressivo!”
Disse-o urrando e a berrar,
“Fui-o…” – fatigado e aborrecido,
“Estou prestes a cessar…” )
(iii.)
Durmo sabendo-me acordado,
Movo-me sem saber se fui sonhado,
Inventei seres, certezas e alegorias
Pois perdi a lembrança dessas memórias…
Que por medroso ser criei…
Pior! Pois absurdo acreditei
Não conseguir ânimo para dizer
À criança dentro de mim (que cessou de engrandecer),
Que tinha de morrer, enfim…
Criança ela, que nunca cuidou ser morta por mim…
Presumível feto, definhou (sem) o Ser no ventre oco...
Aborto imaginário tornado realidade d’um louco.
(iv.)
…iremos todos amanhã perceber.
Amanhã, quando me esquecer de ser.
Quando a carcaça abandonar o ser incolor
E o pensar for apenas mais um fétido odor…
Mas por agora, Inexistêncializo-me aqui em baixo.
Vou-me esconder debaixo do meu seixo,
Morno desconsolo e aconchegante,
Porque só ele sabe acalmar este desconforto lancinante.
(v.)
Insânia paranóia
Vago descontrolo
Insónia ilusória…
Ilusório é o controlo.
Pois não foi nunca meu cadáver
Que a gravidade tem puchado…
Mas sim o cheiro de minh’alma,
Presa, neste feio lugar descuidado.
20090430
Necessidade (>_<)
Um vasto vazio preenche agora
Meu ser povoado de branco,
As horas passam sem demora
Pregando-me a este gasto e sujo banco.
Tripas revoltam-se ferozmente
Emitindo timbres agonizantes…
Do outro lado oiço: “Urgente!”,
Entre ligeiros gemidos, impacientes.
Tento erguer-me deste sentir,
Mal-estar distintamente causado
Por manchas de negro reluzir,
Expelidas, de meu rabo sentado...
“Já saio.”
20090428
...568
Quero deixar o meu agradecimento a todos os que de alguma forma ajudaram a continuar este blog, (fosse através das visitas ou opiniões/apreciações), em especial à minha Outra Parte, Li, por me ajudar a manter a pouca lucidez que me resta :P que me permite continuar, à Preta e a Jo pelas palavras e apoio e ao Victor pelos "desabafos".
Saudações e até breve.
20090422
sem-titulo4 (kamis?)
Nada fazendo para ser acreditado,Sê-lo-ás sem que o queiras,
Temores provocam o rugido bradado
Por ninguém ouvido…
Por todos escutado.
Sem ti estarão perdidos,
Na incerteza da luz fugidia,
Os que pelo vale escuro caminham.
Aguardam surdos os ouvidos
Pela língua que mudo falas,
Procuram os olhos vagos, pelos
Gestos invisíveis que articulas.
Estarás na causa indistinta
Da tua própria dúvida,
Amanha na incerteza prosperas,
Hoje esquecidas alegres certezas
Serão mal ditas por terras
Que outrora foram tuas.
Mas antes que a noite desvaneça,
Aquilo de que te apoderaste injusto
Será tolhido pela névoa espessa
Pois fui eu que te criei, insensato
D’aquilo que a tua figura roubaria.
O manto negro aproxima-se-te
E tal como estas palavras
A memória tua será esquecida
Pela mágoa de horas futuras.
20090331
sem-titulo3 (falência)

Oblíquo perscrutei errante
O conhecimento e o escrúpulo,
Fiz figas nulo, descrente
Perante meu gasto defeito.
Avancei 100 prosseguimento,
Sem bafo nem vista,
Pisei-me excremento,
Saboreei nenhuma conquista.
Em tentativa última de alcançar…
Fui vago e algo pálido,
E carecendo de ti para voar
Tornei-me sublime asco degenerado.
20090329
Ou

Cruas e ignoradas vísceras
Que m’as rasgues Esperançosamente
E as possas submergir, delícias
Em pavor e aguardente,
Desse pus Imaculadas
E bênções de olhar regente,
O que não compreendi
Entrego-te inócuo e sem defeito
Pois não sei se as senti,
Em luz alguma crente,
Fui oco, de tão perfeito.
---
Má focagem no horizonte,
Só de-mente ingénuo
Tamanha meninice indecente
Sou pequeno…
Tão pequeno.
20090308
Bênção ou Maldição? (discussão)
Se é que realmente fomos criados por alguma entidade superiora, então a racionalidade não terá sido apenas uma piada irónica e de mau gosto para evitar que nós, humanos (seres civilizados dotados de inteligência), compreendêssemos aquilo que realmente somos? Não nos terá sido facultado esse “dom” para iludirmos as nossas pequenas mentes com trabalho, modas, família, hierarquias, guerras sem sentido, filosofias sobre a infinidade do universo, física – quântica, a existência (ou não) de “deus” e outros debates e teorias afins, completamente inúteis e a certo ponto frustrantes, que nos explicam a composição dos átomos e dos planetas, mas que não sabem explicar como acontece o “amor” ou qualquer outro sentimento…
Porque rimos? Porque choramos? Porque sentimos saudades? Porque é que criamos deuses, religiões, paraísos e infernos? Porque é que gostamos de outra pessoa?
>Apesar de saber que este tópico não levará a nenhuma “conclusão” (nem ser este o objectivo deste blog), gostaria através deste “post” criar uma discussão (ou algo que se lhe pareça) relativamente ao facto de a nossa “inteligência” ser uma bênção ou uma maldição.
20090127
Palavra
A dissimulada…a maldita!
Arranhando-me a garganta
Com magnificas roupas doiradas
Que lhe escondem as feições horríficas...
Dançando com o silêncio,
Cai, lágrima seca em minha cara.
“Aquietarás a minha dor?” pergunto,
E de sentidos erectos,
Caio inerte. Mudo...
Quero fornicar-te mas faltam-me as forças;
E como se d’uma reles puta se tratasse
Deixar-te usada sem dignidade.
“Sussurra-me!” disse baixinho.
“Sem pudor ou por piedade,
Pois, que voz seguirás se o vácuo do silêncio
Roubar de teus ouvidos essa gasta verdade?”
20090125
Cumplicidade
(este é um texto já bem antigo, inicialmente feito para ser um conto...decidi posta-lo, apesar de inacabado(sendo isto a introdução), pois já não terá seguimento devido ao facto de deixar de ter significado/sentido)Eram cúmplices. Aquele segredo que os unia interiormente, transformava qualquer profano ambiente que rodeasse a sua proximidade etérea, numa espécie de dimensão paralela secreta, um local sagrado de culto à beleza, à paixão, ao quente encarniçamento dos corpos, à entrega mútua. Só a eles pertencia, autonomamente de quem os cercasse ou do que estivesse a acontecer. O contacto físico não era de todo fundamental. A ligação era maioritariamente psicológica, realizava-se através do mais subtil dos olhares, da mais inocente expressão ou do mais elementar pensamento… a transcendência do espírito de um e de outro fluía livremente entre as duas carapaças que outrora albergavam apenas a essência de cada um. Eram um só espírito…a mais longínqua das distâncias não separava as suas mentes interligadas nem os seus apressados corações, pois eles batiam em uníssono, qual pauta de orquestra clássica guiada pelo mesmo maestro inequivocável, comandando magistralmente os ritmos e os sons que se elevavam e contagiavam de êxtase o ambiente envolvente.
Mas tal como criaturas insatisfeitas, a distância física tornava-se impossível de suportar. Protegidos pela calma escuridão da noite e pelo conforto de um lar (que não lhes pertencia nem nunca iria) tocaram-se pela primeira vez. Arrepios corriam de um corpo para o outro. A paixão com que um simples beijo era trocado era quase violenta. Desejo. O deslizar das suas mãos pela pele um do outro despoletava doces calafrios que se tornavam promessas eternas. Paixão, amor…sexo. Desenfreada repetição.
A entrega era agora completa.
Completa de desejo e corrupção. Aquela que fora uma imaculada e idílica paixão estava agora tingida pelo pecado que advinha do toque. Já não mais seria senão uma pálida imagem turvada como um magnífico quadro desbotado pelo desgaste que o tempo não perdoa.
O que outrora fora um local de culto sagrado etéreo era agora um amontoado de ruínas profanadas pelo contacto. Nunca mais seria igual. O que de mais puro outrora houvera tinha sido estrangulado pela intensidade do desejo físico. Aquela paixão imaculada estava agora coberta por uma máscara, que, sendo impossível de tirar, provocava uma lenta degeneração no rosto, em tempos belo, coberto por ela, tal como uma doença que devora a vitalidade do seu infeliz portador… E quando a doença finalmente se esvanecesse, nunca nada mais seria o mesmo…
(...)
"Como é horrivelmente hedionda essa doença chamada memória…" - pensou.
20090121
Torpor

De mais um eco de minha memoria faminta,
Demoro, atordoado e sem choro.
Rodeado pelo meu próprio requintado bafo poluído,
Deixo escorrer timido para o chão imundo
O vinho de mais uma taça imoralmente servida
Sob esse amargo olhar de mágoa desdita…
(…fumo?)
Olho o ingénuo com pernas deformadas que se me aproxima,
Vulto d’um agonizante sorriso sofrido,
Esbatido numa expressão de porcelana rosada.
Sussurra murmúrios que fogem ao ouvido
Empoeirado, ignoro satisfeito
Deixando-me envolver pelo cheiro a queimado.
“Vem das tuas asas” diz ele, agora em tom claro…
Acena-me um leve gesto incerto, magoado.
Deixo-me entorpecer pelo odor carbonizado
E ignoro a dor sentida
Dentro desta carcaça com vida,
Comodamente enfraquecida.
20081208
(desabafo à inspiraçao)

Esmoreço.
Esmoreço ao tentar-te.
Esmoreço caído num chão frio de raiva outrora carrasca.
Esmoreço retraindo todo o proveito que não mais há em mim.
E quando penso sentir-te na frágil luz que terrificamente me cega,
Desapareço…
Pela raiva frio, declinado neste chão rumino
Aquel’outro proveito meu, porque Não te pertenço.
Esmoreço. Enfraqueço…Penso ver-te e…
Esqueço.
Ondulado sob o meu molde vomito-te
Forma vã e indiscreta, não mais é minha nem pretensa.
Tormenta desencarecida d’um som repetitivo.
Desencantadamente vazio,
Desafortunadamente pretendido…
Esmorecido.
20081023
sem-titulo2 (Lâminas)
Quase senti a sua pulsação,20080917
Vazio

Adulterados,
Putrefactos,
Mortos
Oh! Sofrem…
Vivem…
Tatuadas faces em minh'alma,
Hediondos pensamentos mal cultivados,
Incertos sorrisos – estranhos diálogos…
Alivio da minha falsa inocência
Essa presença sempre ausente…
E cedendo ao pleonasmo da antítese
Do ícone cinza que apoio no regaço,
Olho a imagem da moldura que não me pertence,
Que não passa de mais um destroço.
Imagino…
Preencho o dia com nada e tudo,
Cultivo inconsistentes incoerências,
Ignoro…
Ignoro.
Clamo sereno,
A névoa
Desprovida de sentimento
Aquel'outra dormência,
Aquela fútil inconveniência.
Na estante empoeirada,
Guardo o sentido
Enquanto raspo da pele os últimos indícios
E recuso todos os vícios
E mordo o vazio,
Fico finalmente bem…
Vazio…
20080905
Nunca

Deambularei num sonho acordado,
Alimentando-me de teu fugaz sorrir.
Esperarei não mais despertar
Ainda que adormecer seja tormento,
Ainda que simulado seja o sentir.
Quando morrer
Morri dentro de ti.
Morri nas desculpas aborrecidas,
E nas noites de aproximações desaparecidas,
Impregnei de negras culpas,
Este ar que não mais respiras.
O que foste, o que és?
Da minha vez que nunca acudiu
Uma promessa quebrada,
De um doce apelo temperada,
Despojaste de sentido aquela utópica realidade.
Quando morrer
Morrerei dentro de ti.
Desilude-me a cor dos olhos, peço-te
Uma vez mais...
Adormece-me…
Permite-me divagar naqueles desbotados lençóis
Que tingiste com esse aroma sem cheiro
E abandona-me uma vez mais...
E mais...
E mais...
e...
Não morri...
Nunca dentro de ti...
20080701
sem titulo1 (medusa)
Pútridos e fétidos sentimentosD'um arroxeado coração obsceno,
Dúbios são seus intentos
E fatal é seu veneno.
Com um simples olhar condena
Imortais almas a um lento definhar,
Absorve essências serena,
Tinge com sangue o sagrado luar.
Possam as aladas águas,
Que tardam em cair,
Limpar as despresiveis mágoas
Que ela faz sentir.
(Ilustração de: Manel)
20080627
Frio
Frio.Assim é esse teu impetuoso coração.
Egocêntrico narcisismo teu que quimericamente me hipnotiza, me transmite esse falso calor fulgoroso de que na verdade és destituída. Atroz Fevereiro imerso de crueldade, fazes-me crer sem necessidade de ver e sentir sem precisar tocar...condenaste-me a alma a uma eternidade atroz e pavorosa quando olhaste dentro de meu peito esburacado...curaste-me as feridas para que aquela que me farias fosse mais verdadeira... impregnas-te a minha incontrolável imaginação com uma inconsolável (até mesmo para mim) e bela utopia. Mas as utopias há muito que findaram... e nem mesmo tu, ó formosa estátua de deusa grega, conseguirás que estas mãos trémulas segurem esse bem que não é meu.
Teimas caprichosamente em caminhar a meu lado numa estrada que só a mim tem visto passar, que só a mim pertence. Teimas... mesmo sabendo que irás ser parada...impedida de continuar, por tua única vontade. Agora que me afasto...que quase já não te consigo observar, impedido pela sensata distância que tu própria impuseste, ainda sentes o mesmo? Ainda possuis essa maldita vontade de profanar os meus pensamentos? Ó esquecimento misericordioso que o tempo tarda em trazer...
Anseio novamente pela solidão, pois já não sei lidar com pessoas, esses desprezíveis seres, ignóbeis e imundos que riem e mentem indiscriminadamente. A essas odeio-as. E a todas a outras também, até mesmo as que sofrem e choram. Faz-me saudades os momentos íntimos em que ainda me deslumbravas... em que descobria arroxeadas flores-de-lotús dentro da tua verdejante imensidão, que tão lenta e docemente me dominava, quais suaves asas de um anjo. Fantástico desejo ilusório. E quão vã é a forma como a mim te diriges.
Cruel é o teu abandono e desleal a tua presença.
És cisne e carcereiro, orquídea e cipestre... és carta de amor e sentença de morte.
Promessa eterna de uma fugaz névoa matinal, ilusória.
(Não deixando de o fazer) Não mais te quero sentir.
Decepção
Através de um involuntário desejo que me assentiu a minha profana consciência, coloquei uma amarga e desconsolada máscara naquela que era a mais angelical das faces...Não que a agora magoada expressão com que me fita através de delicadas gotas translúcidas que caem indiscriminadamente choradas pelas inalcançáveis nuvens negras, perplexas neste cenário melancolicamente cinzento, incite qualquer tipo de deleite à minha extasiada alma. Porém, tal como o impetuoso prazer de uma inocente criança desinquieta ao inexplicavelmente ser impelida a quebrar um harmonioso jarro de flores da sua progenitora, (ainda que saiba que é desacertado) assim é o prazer de que usufruo-o actualmente ao ter certeza que o desapontamento que lhe causei foi verdadeiramente genuíno. Não é decerto um sentimento, esse o da desilusão, que posturas mascaradas e amarelas de falsidade e logro possam delicadamente ocultar, como a noite sombria faz em prol do ladrão. Oh! Como a sua demonstração desse vil e mesquinho sentimento é docemente encaminhada até ao palato do meu coração! E quão grande é o meu deslumbramento!Sórdidos são os teus intentos…Eram…!
Ir-te-ei oferecer tantas decepções carmim quanto me forem toleradas. Ir-te-ei impregnar tamanha porção delas até a morte por desgosto se apoderar da tua reles alma desprovida de justiça. A justiça é cega e tu julgas somente com esses olhos que quimericamente me fitam, hipnotizam e entorpecem…
Sigo-te…quero-te…não…recupero a minha ténue força…
Eis o meu admirável espelho do egoísmo.
Agora que o viro para ti, que te obrigo a olhares fundo no teu gélido coração, julga, avalia e crê no que observas assombrada.
Não mais hipnotizarás.
Chora.
Vermelho-Sujo
Penso que o pecado consumado da inveja, muito meu para com escritores, poetas e afins, foi a única razão que me impeliu a tomar-lhes este rumo, que me é desconhecido (ou pelo menos não tão familiar). Letras. Palavras. Frases. Quero com elas expulsar do meu interior pútrido, confusos sentimentos repetitivos como este maldito tic-tac de um enorme relógio de cuco numa fria sala obscura e solitária de cor vermelho-sujo…Não! Exijo que elas exorcizem todo o mal/bem que possuo dentro do meu peito para que depois, finalmente desprovido de sentimentos, me torne um ser sem sensibilidade de espírito. Poderei até, mais tarde, permitir-me observar parte daquilo que outrora pensei me fazer sentir vivo, (como agora penso que faz?) no entanto, sem remorsos ou estúpidos sentimentos de culpa. (oh doce engano venenoso que me adoças os lábios e aqueces o coração). Ou então, que ao reler-me nesse (espero) distante momento, não me fizesse sentir tão cadavericamente esvaziado como nos demais anos que o tempo não tem vindo a perdoar ao meu desgastado-pelo-uso motor vermelho.Assemelha-se-lhe o tempo, caprichoso.
A sua presença, ora radiante ora implacável, todavia omnipresente, exerce sobre mim uma espécie de aperto invisível, que actua como um poderosíssimo torniquete metálico ou mesmo talvez como a pressão que se encontra no fundo dos oceanos inabitavelmente gelados. Invade-me o peito em repentinos movimentos repetidos (como o ponteiro dos segundos naquele velho relógio) até que finalmente convergir na mais pavorosa estagnação.
Sim…é, tal como o inevitável fluir do sempre fugaz tempo, implacável. Ainda assim, até o tempo com o seu imparável avanço possui momentos mortos.
Afastou-se finalmente.
Mata-me! Rápido! (Não. Lentamente, por favor…)
Degrada-me ainda mais um pouco a cada avanço (agora mais vagaroso) do ponteiro dos minutos desse antiquado relógio de cuco. Mas sempre que se aproxima a (nossa) hora marcada, quando o culminar do esforço sentimental desse ponteiro para se encontrar com a sua amante na casa das 12 atinge o seu expoente máximo, quando esse mesmo fabuloso momento chega, o cuco não canta. A portada da sua moradia abre-se… porém, já ninguém habita a escura e húmida abertura no topo do velho relógio de mogno. E o pesaroso silêncio instala-se por todo o espaço vazio da sala vermelho-sujo. A mesa já não tem tampo e as cadeiras já não têm encosto. As outrora belas orquídeas prostradas num vaso requintado no peitoril da única janela da sala apresentam um aspecto quase miserável. Já não é confortável.
Mas ele continua lá. Avança soluçante…faltam-lhe as forças. Apodera-se dele um sufocante cansaço. A sua passagem pela casa das 12, algo que já se lhe tornara familiar, avizinha-se agora como uma tarefa praticamente impossível de se repetir…e quantas foram essas pecaminosas repetições! Ainda que sempre breves, nunca deixaram de ser imbuídas num deleite tal que o desejo do regresso ás 12 tornara-se quase uma obsessão. Mas o velho relógio de mogno era de corda…e quem iria entrar naquela sala fria e de texturas vermelho-sujo para lhe dar o último laivo de força que ele precisava?
Parou enfim…
O canto do cuco nunca mais será entoado. O maldito tic-tac suave dos ponteiros não mais se irá ouvir.
Ficou agora vazia, a sala vermelho-sujo… verdadeira e inevitavelmente vazia…


